PERFIL MÊS: ROSA RODRIGUES

Psicóloga do Grupo de Implante Coclear Hc-Fmusp


16/02/2017

Rosa Rodrigues nasceu em 26 de novembro de 1970 em São Paulo. De família pequena, contando apenas com um irmão, Rosa conseguiu sempre manter contato com diversas culturas muito por conta de sua mãe, Antonia, ser de Mococa, interior de São Paulo, e seu pai, Manoel, natural de Jequié, interior da Bahia.

Por esse histórico cultural rico, Rosa ouvia as mais diversas histórias de seus avôs e avós, mas sempre contadas por seus pais e suas divertidas tias, Bel e Manoela, pelo pouco convívio com essa parte da família. “Meu avô materno era um militar que foi muito respeitado na cidade, sendo o homem procurado pelos rapazes que não tinham pai para representá-los no momento dos pedidos de casamento. Um homem firme e muito amoroso. Minha avó materna, linda, doce, mas com morte prematura... Aprendi a amá-la pelas palavras lindas que sempre ouvi sobre ela. Meus avós paternos, do mato... ouvi muito falar de onça, curupira, caçadas com animais. Tia Bel era mágica, sempre inventando coisas, transformando as comidas que sobravam em algo ainda mais especial... Com elas, aprendi a valorizar a magia do que é feito em casa...”, lembra Rosa.

Tirando lições das muitas histórias que lhes eram contadas, Rosa cresceu até sua adolescência na zona leste de São Paulo, Vila Formosa. Recorda-se da infância, que fora muito bem aproveitada com diversas brincadeiras, seja com as bonecas Susi ou com jogos infantis, como “saquinho” ou Genius. Ainda assim, a sua geração viu o nascimento dos videogames, que também foram aproveitados nesta época.

O tempo passou e a infância foi embora. Aproveitando o fervor dos anos 1980, Rosa descobriu uma paixão na música e também em explorar a cidade. Bandas como The Police, The Smiths, Tears for Fears a ajudaram a se aproximar do idioma inglês, além de ser fã das brasileiras Legião Urbana e Plebe Rude.

 “Além disso um pouco mais ‘cult’, participava dos passeios de final de semana com a moçadinha, sempre nas danceterias – termo muito usado na época! – Contra Mão, no Tatuapé; Over Nigth, na Mooca; as matinês do Up & Down e da Latitude 3001, que era um barco, na Av. 23 de maio”, conta Rosa.

Porém, nem tudo era diversão e festa. O rigor com os estudos sempre foi presente. No ensino médio, cursou processamento de dados, logo tendo conhecimento de que aquilo não seria a ponta da escolha de sua profissão. “Meu primeiro trabalho e estágio, - que eu e uma amiga conseguimos pedindo vaga de porta em porta, em todas as empresas da área que encontramos em uma lista telefônica – foi na R. Frei Caneca. Como não havia ainda o metrô linha verde, que, aliás, estava sendo construído à época, eu tinha que andar a Paulista quase inteira... o que era uma delícia! Era tudo novo e encantador, muito diferente do meu bairro na zona leste”, comenta.

Rosa estudou, em todo ensino fundamental, na EMEF Presidente Kennedy; ensino médio, no Colégio Brasil, mas tinha certeza de que não permaneceria na área em que começou a trabalhar. “Consegui um emprego como bedel no cursinho da Anglo da rua Tamandaré. E ganhei bolsa integral para estudar lá. Vários dos meus maiores amigos são desta época de muita dureza, muito empenho. Quase todos nós nos formamos em universidades públicas”, diz.

 

Tia Bel e a psicologia

Sua tia Bel e a influência de sua mãe foram de suma importância para Rosa escolher seguir carreira como psicóloga. “Queria estudar psicologia na USP, onde a carreira se encontrava na área de biológicas, havendo aí também uma tentativa de resgate de um sonho de infância: ser cientista, aquela pessoinha meio “maluca” obstinada, de aventalzinho branco”, conta. E foi o que aconteceu. Rosa passou e já no primeiro semestre simpatizou muito pelo trabalho do professor Fernando Capovilla, já integrando seu grupo de pesquisa. Pouco depois, descobriu e se aproximou pelo estudo de questões raciais, em psicologia social, com a professora Iray Carone.

Nesse grupo de estudo, conseguiu escrever um capítulo no livro Psicologia Social do Racismo. Em paralelo, vinha o interesse pela psicanálise. Com isso, afastou-se do estudo acadêmico das questões raciais. No último ano da faculdade, Rosa  interessou-se pela loucura na infância e fez um estágio no Hospital Dia Infantil da Mooca. Lá, assistiu a uma palestra do Dr. Domingos Infante, chefe do serviço de psicologia e psiquiatria do ICr na época, e decidiu que faria especialização com ele. Prestou a prova, passou e desde então está no Complexo do HC, trabalhando há 18 anos concursada como psicóloga na Divisão de Psicologia do ICHC, atuando na Clínica Otorrinolaringológica.

“Ao invés de especialização, fiz o aprimoramento no ICr. Contudo, a formação em psicanálise é contínua, participando, desde o término da graduação das reuniões semanais da Seção São Paulo da Escola Brasileira de Psicanálise, que é vinculada à Associação Mundial de Psicanálise, com orientação lacaniana. No Clin-a, Clínica Psicanalítica de Investigação da Ansiedade, participo também – há mais de 10 anos, do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com Crianças e Adolescentes. Por estar vinculada a estes grupos, participei da organização de diversos eventos em psicanálise, como o VII ENAPOL – Encontro Americano de Psicanálise Lacaniana – “O Império das Imagens”, realizado em São Paulo, em 2015”, continua Rosa.

 

Medicina e psicanálise

Tentando estabelecer algum diálogo entre medicina e psicanálise, Rosa conseguiu realizar seu mestrado sendo orientado pela Dra. Tanit Sanchez. Nessa época e em outras do trabalho na Clínica Otorrinolaringológico, teve artigos publicados. Realizada nesse sentido, Rosa coleciona histórias tocantes que compartilhou com seus pacientes, ao decorrer de anos no oficio.

“Durante o mestrado, lembro-me de uma senhora, com mais de 80 anos, na ocasião, que apresentava, além do zumbido, dos fenômenos alucinatórios auditivos, questões reumatológicas graves e, sem dúvida, era muito ligada a todo o lado dramático e sofrido da vida, com importantes sintomas depressivos. Apesar de sua idade, ela conseguiu se dar conta do modo como conduzia sua vida, mudando sua postura com seu sofrimento pessoal e o dos outros, tendo uma existência melhor, conseguindo aproveitar bem mais sua vivacidade e inteligência”, relata.

Falando algo de um caso recente, Rosa cita, um menino de pouco mais de 2 anos que, após uma perda auditiva súbita, que foi remitida completamente, apresentou uma interrupção de sua fala, bem como mudou totalmente seu contato com o outro, distanciando-se, chegando a ter uma aparência autística. Com as entrevistas psicológicas, ficou evidente que este comportamento da criança apresentava uma relação muito importante com a atitude parental – pais jovens, muito ligados a seus trabalhos e com grande dificuldade para exercerem as funções parentais de modo que ajudasse que este menininho pudesse encontrar neles uma consistente sustentação afetiva e simbólica. “Felizmente, estes pais, especialmente a mãe, são pessoas muito delicadas e atentas aos apontamentos, o que tem permitido, em pouquíssimo tempo, uma grande mudança nas atitudes deste menino, que volta a falar e a se vincular de muito afetivamente investido. Esta criança também está em fonoterapia”, diz.

Para Rosa, é emocionante colaborar para que alguém que consiga aproveitar a vida, talvez até melhor do que antes, após o surgimento de um evento que transformou seu rosto para sempre – como as sequelas de paralisia facial, ou a perda de partes do rosto –, superando algo que deve deixar de ter o caráter unicamente traumático para ser integrado na vida. E, agora, sua vida profissional está muitíssimo ligada ao Grupo de Implante Coclear HC-FMUSP. “Tenho a oportunidade de exercício intenso da psicologia na assistência prestada através das avaliações e intervenções; também no ensino e na pesquisa, buscando me dedicar profundamente para produzir novos conhecimentos”, comenta a psicóloga.

           

Vida familiar

Além do tempo dividido entre a profissão e a pesquisa, Rosa mantém sua vida familiar com seu marido, professor de História. Entre saídas com amigos e reuniões familiares, Rosa destaca que é importante sempre estar em contato com as pessoas que ama. “Não tenho filhos, mas tenho dois enteados que não moram conosco. Uma moça adulta e um garotão de quase onze anos. A relação com eles é boa, mas muito diferente. Entrei na vida dela num momento particular, em sua adolescência, o que necessitou que eu tivesse muito tato e paciência; já com ele, sua vidinha acompanhou a minha, vi todas suas aquisições e as vejo. Parceiros diferentes e muito queridos”, diz.

Rosa costuma frequentar diversas atividades culturais como shows, teatro e cinema, que são os maiores interesses para aproveitar o tempo quando não está centrada trabalhando ou pesquisando. “Como meu marido adora esportes – nada, pedala, corre –, comecei a correr também, o que é muito delicioso e fez bem para minha saúde!... Mas, com todas minhas atividades de trabalho, meus horários de treino se resumem aos finais de semana. Pouco, mas muito gostoso!”, afirma.

 

Novos cursos da Fundação

E, como também colabora em ativadades da Fundação Otorrinolaringologia, Rosa comenta sobre o trabalho desenvolvido lá: “a Fundação é um polo de excelência em formação de profissionais de diversas áreas ligadas à otorrinolaringologia, bem como, cada vez mais, interessada em ações de interesse e benefício social.  Dessa forma, estar perto de tudo isso, colaborando sempre que possível, é causador de muita honra e alegrias. A recente oportunidade de ofertas de cursos e atividades para psicólogos é uma nova frente para crescimento da FORL, fazendo um trabalho pioneiro no Brasil, ao oferecer e colaborar com excelência para o fortalecimento da psicologia da saúde, especificamente, nas questões ligadas à surdez. É realmente um orgulho participar deste momento inaugural, juntamente com as colegas Heloisa Romero Nasralla e Érica Lavezzo Dias!”