PERFIL MÊS: MARIA VALÉRIA GOFFI-GOMEZ

No dia 19 de outubro completará 25 anos de HC-FMUSP


10/10/2012

Com 16 anos, a adolescente Valéria Goffi decidiu que trabalharia na área da Saúde. "Papai era médico, meu tio e primo também e meu irmão já cursava medicina. Sabia que queria estudar algo nessa área. Só não sabia o quê", relembra a fonoaudióloga que no dia 19 de outubro completará 25 anos de HC-FMUSP.

Para descobrir qual área seguir, consultou o livro da FUVEST e encontrou a Fonoaudiologia. "Também aproveitei que meu irmão estava cursando a Escola Paulista de Medicina e fui até lá conhecer o curso e corpo docente. Na época, era uma escola com tradição, então, quando me inscrevi para o vestibular coloquei a USP como primeira opção porque acreditava ter mais chances de entrar na Escola Paulista se a colocasse como segunda opção. Nem acreditei quando saiu a lista de aprovados da FUVEST, e descobri que tinha entrado na Escola Paulista! Poderia ir com meu irmão à faculdade e não teria dificuldades para me enturmar, pois já conhecia todos seus amigos", diz ela.

Mas não foi bem assim que aconteceu. A lista saiu em época de férias e Valéria, que já tinha uma viagem marcada para passar o Natal com a avó e primos na Argentina, deixou uma procuração para sua mãe inscrevê-la na faculdade. "Minha mãe viu que eu tinha entrado na segunda opção e pediu meu remanejamento acreditando que a primeira opção era minha preferência... Alguém havia desistido - eu era a primeira na lista de espera - e eu entrei no lugar dessa pessoa. Eu só descobri quando voltei das férias e fiquei muito brava com a minha mãe. Afinal, eu estaria longe dos amigos que já tinha. Mal sabia eu que seria o início de um grande aprendizado dentro do Hospital das Clínicas que se perpetua até hoje", diz Valéria.

O início de tudo
Apesar das dúvidas da caloura Valéria, a ambientação na FM-USP foi muito tranquila. "Fiz amizades duradouras. Minha turma era bárbara e até hoje nos encontramos e lembramos dessa época, do estágio no no pronto-socorro, no ambulatório com o Dr. Sérgio Garbi, das aulas com Dr. Roberto Bonamoni, inclusive da comemoração do dia do Reconhecimento da Fonoaudiologia em 1982! Ao me formar fui convidada a trabalhar com a Dra. Mara Behlau, a Dra. Silvia Pinho e a Rita Hersan no consultório e me iniciei a especialização em Vestibulometria e Otoneurologia com o prof. Dr. Mauricio Ganança, meu querido orientador. Em 1986 a Maria Isabel Machado de Campos, nossa querida Bel, convidou-me para substituí-la no consultório do Dr. Alexandre e do Dr. José Alexandre Medicis da Silveira. Fiquei lá por 11 anos. Mas desse contato, recebi em 1987 o comunicado da secretária da Otorrino no HC, a Terezinha de que haveria o concurso para preenchimento de uma vaga de fonoaudiólogo na ORL. Me inscrevi e prestei. Como não sabia se passaria ou não, e nem quando seria a convocação, marquei uma reunião com amigos e familiares no meu aniversário, que acontece no dia 20 de outubro. Para minha surpresa, passei no concurso e fui convocada a iniciar no dia 19 de outubro... Já comecei faltando no primeiro dia de trabalho por causa do aniversário", conta a fonoaudióloga.

Em 1988, Valéria começou a montar o ambulatório de reabilitação da paralisia facial periférica (PFP) no HC. Era grande o fluxo de pacientes com PFP na audiometria e coincidentemente houve uma tese de doutorado que encaminhou vários pacientes para a reabilitação. "Dr. Eduardo Vellutini, foi um grande incentivador desse ambulatório encaminhando os pacientes de sua tese. Com a autorização do Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento, iniciamos os atendimentos. Aliás, sempre que falo do Prof. Ricardo, me emociono. Se há alguém que acredita na sua equipe, é ele. Tudo o que eu quis fazer, ele sempre apoiou e abriu todas as portas e sempre me deu carta branca para fazer o que eu achasse que deveria. Ele sabe liderar e motiva cada um de sua equipe", continua ela.

Em 1989 o prof. Ricardo Bento apresentou um projeto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para o desenvolvimento de um implante coclear nacional. "Foi o primeiro no Brasil. O BID aprovou e com isso toda a equipe envolvida no projeto foi enviada para diferentes centros de implante coclear em diferentes países. Nessa mesma época, engravidei do meu primeiro filho e iniciei o mestrado na UNIFESP. E, então, quando estava com sete meses de gravidez viajei com a psicóloga Heloisa Nasralla para Los Angeles e fiquei trinta dias no House Ear Institute aprendendo tudo que podia a respeito do implante coclear. A presença da Helô comigo fez toda a diferença nessa estadia!", conta Valéria. O bebê (Eduardo) felizmente, nasceu depois de Valéria voltar no dia 23 de dezembro.

"Quando terminei o mestrado em 92, já tinha ganhado o Marcelo também... Foi uma delícia escrever a tese enquanto amamentava... O doutorado, terminei em 1997, sem bebês, mas se não fosse o apoio de toda a equipe de fonos da ORL HC, a Bete Pedalini, a Laura Garcia, a Flavia Bonadia, a Lucia Cleto e a Bel Machado de Campos, que me ajudaram bastante, eu não teria conseguido", diz a fonoaudióloga.

Valéria Goffi gosta muito da equipe que pertence. "Essa equipe de fonoaudiólogos da Divisão de Clínica Otorrinolaringológica é muito forte e unida. Crescemos juntas, graças ao aprendizado diário em meio aos médicos e pacientes. Todos os otorrinolaringologistas sempre nos apoiaram e incentivaram no crescimento profissional. Nesses 25 anos de Clínica ORL aprendi tudo o que eu sei, ganhei grandes parceiros, como o Dr. Rubens Brito e Dr. Robinson Koji Tsuji. Sou imensamente e eternamente grata a eles e a toda a Divisão ORL", diz ela.

Implante coclear
O projeto que Valéria Goffi-Gomez participou com implante coclear no Brasil foi para o desenvolvimento de um aparelho de implante coclear nacional que criou o FMUSP1. "Nove pacientes foram implantados e o papel da fonoaudióloga se resumia à avaliação pré-operatória e à reabilitação, pois a programação do processador de fala era feita pelos engenheiros do projeto. Com a portaria do SUS de 1999, os implantes multicanais (multieletrodos) passaram a ser usados e o papel do fonoaudiólogo foi ampliado, assim como de toda a equipe. Aprendemos juntos, médicos, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais a pensar, trocar, respirar e transpirar como equipe para o melhor atendimento ao paciente e sua família. O papel do fonoaudiólogo atualmente abrange desde a avaliação, o preparo a família do futuro implantado, e a participação na cirurgia para verificação do perfeito funcionamento do dispositivo e da integridade da resposta do nervo auditivo, além de ativar e programar o implante e ser a responsável pela reabilitação do paciente. É um trabalho complexo, mas sempre apoiado por toda a equipe, é altamente satisfatório porque assistimos os esforços das famílias e dos implantados vendo os resultados maravilhosos que alcançam", continua ela.

O Grupo de Implante Coclear cresceu e evoluiu muito. "Houve muitas mudanças nos últimos anos. Vários métodos diagnósticos são semelhantes aos que eu aprendi na faculdade, mas a ampliação de novos procedimentos aliados à tecnologia faz com que a profissão se renove constantemente e a motivação para cada dia de trabalho seja maior. É muito bom descobrir sempre que é preciso procurar mais respostas porque cada paciente, cada aluno provoca novas descobertas", finaliza Valéria.