PERFIL MÊS: DRA. JEANNE OITICICA

Nascida no Rio de Janeiro, em 30 de setembro de 1975, Dra. Jeanne Oiticica, a filha mais velha do casal de professores Solange Oiticica Ramalho e João Alfredo Savastano Ramalho


07/07/2014

Nascida no Rio de Janeiro, em 30 de setembro de 1975, Dra. Jeanne Oiticica, a filha mais velha do casal de professores Solange Oiticica Ramalho e João Alfredo Savastano Ramalho, mudou-se com quatro anos de idade para Maceió.
Foram infância e adolescência felizes, com muitas brincadeiras de rua. Além das brincadeiras, a curiosidade pelo conhecimento sempre esteve presente. Num dos Natais, ainda criança, pediu de presente um microscópio para ver com detalhes plantas e pequenos bichos do jardim.
O ensino fundamental e o ensino médio foram feitos no Colégio Santa Madalena Sofia. A escolha pela medicina veio aos 17 anos de idade, quando a otorrinolaringologista pensou em uma profissão que poderia fazer a diferença na vida das pessoas.
A partir dessa época, Jeanne descobriu que tinha facilidade para fazer amigos e a faculdade fez com que o seu lado social se intensificasse. "A universidade trouxe para a minha vida pessoas de todos os Estados, de classes sociais diferentes. Ao mesmo tempo, precisei reaprender a estudar, descobrir todos os músculos do corpo humano - são mais de 500 - recessos, ossos, etc. A cadeira de Anatomia no primeiro ano era muito rigorosa e eu precisava dar conta do curso e, para isso, estudava até altas horas da noite", comenta.
Sua rotina também modificou por completo. O horário de sono diminuiu, as aulas de dissecção de cadáveres passaram a fazer parte do dia a dia e a adaptação não foi fácil. "Levei uma rasteira em termos de estudo, a carga horária e o nível de atenção tinham que ser muito altos para um resultado satisfatório. A adaptação veio e me tornei monitora da disciplina de Anatomia, matéria que me trouxe maior dificuldade no primeiro ano do curso", lembra a médica.
Quando passou a fazer plantão, no Hospital José Carneiro, a Dra. Jeanne descobriu que se interessava mais por cirurgias, especialmente as de pequeno porte. "Escolhi a otorrinolaringologia porque ser uma especialidade que nos permite trabalhar com três sistemas sensoriais ao mesmo tempo - audição, olfato e gustação... Bem, na época eu achava que eram três sistemas sensoriais; hoje sei que são quatro, pois aprendi muitíssimo durante os anos de convívio com meus colegas do Setor de Otoneurologia do HC-FMUSP sobre a importância do sistema vestibular e do equilíbrio e suas repercussões no dia a dia dos nossos pacientes. Para aprender mais, mudei para São Paulo para fazer a minha residência no Núcleo de Otorrinolaringologia de São Paulo", continua ela.
Veia acadêmica
O forte do serviço de residência que cursou, chefiado pelo Dr. José Antônio Pinto, sempre foi Laringologia, Roncos, Apneia e Rinologia. Nesta época, sentia uma curiosidade grande e uma vontade enorme de aprender mais sobre Otologia e Otoneurologia. "Eu sempre quis fazer doutorado até pela veia acadêmica dos meus pais". Naquela época fui apresentada ao Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento por intermédio do Prof. Dr. Alberto Rossetti Ferraz, meu sogro. Foi aí que fui premiada, consegui tê-lo como orientador e entrar para o melhor Serviço de Otorrinolaringologia do país. Fiz o meu doutorado em Regeneração de Perfurações de Membrana Timpânica em Chinchilas, e me tornei Doutora em Ciências pela FMUSP em 2006.
Para desenvolver o doutorado, a Dra. Jeanne trabalhou no Laboratório de Investigações Médicas (LIM-32). Anestesiava cobaias e chinchilas, perfurava a membrana timpânica e esperava cronificar. Foi então que testou o fator de crescimento epitelial como droga para regenerar e refazer perfurações crônicas de membrana timpânica. "Com as cobaias não consegui estabelecer um modelo adequado de perfuração crônica de membrana timpânica, o que só foi possível com as chinchilas. Esse trabalho só foi viável com Auxílio à Pesquisa FAPESP, solicitado em nome do Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento. Eu passava a maior parte dos meus dias me dedicando à tese, e no tempo livre passei a acompanhar as professoras do HC-FMUSP - Dra. Roseli Bittar, do Setor de Otoneurologia Clínica, e Dra. Tanit Ganz Sanchez, na ocasião responsável pelo Ambulatório de Zumbido", continua. Dra. Jeanne passou a acompanhar os casos clínicos de tontura e de zumbido, fazia avaliações diagnósticas e tratamento nos casos. Publicou, nesses quatro anos que trabalhou em conjunto com as duas médicas, alguns trabalhos em revistas médicas e foi nesta ocasião que a Dra. Roseli Bittar chamou-a para coordenar o Ambulatório de Surdez Súbita, o que lhe rendeu bastante experiência.
Para ganhar um dinheiro extra, além da bolsa de pesquisa de doutorado do CNPQ, trabalhava como Otorrinolaringologista na Clínica de Otorrino e Otoneuro, ao lado do Dr. Roberto Alcântara Maia. "Tive muita ajuda para compor a defesa da minha tese. Além do Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento, que foi essencial no desenvolvimento da tese, meus colegas me ajudaram e a Dra. Maria Cecília Lorenzi, que na época, além de ter sido membro da minha banca de qualificação, me convidou para trabalhar com ela na Eurotrials, uma enorme oportunidade de trabalhar no mundo coorporativo das pesquisas clínicas e dos grandes laboratórios. Para o doutorado, também tive ajuda de diversos outros professores da FMUSP, incluindo o Prof. Dr. Roger Chammas, o Prof. Dr. Eduardo Pompeu e o Prof. Dr. Paulo Saldiva me ensinaram muito. Prof. Eduardo me ensinou a patologia das chinchilas e das cobaias e como fazer os cortes em cada uma delas, como armazenar e manter os bichos. Quando defendi a tese, em 2006, o Prof. Ricardo me chamou para trabalhar no LIM", diz. Eu tinha acabado de defender meu doutorado e o Prof. Ricardo me chamou na sala dele e disse: "Você vai criar no laboratório a infraestrutura necessária para fazermos os testes genéticos para surdez". Eu lembro que naquela hora um frio me correu a espinha e pensei "Eu não tenho a menor ideia de como fazer isto acontecer, nunca entrei num laboratório de biologia molecular antes, nunca acompanhei um teste genético para detecção de mutação de surdez antes". Sai daquela sala pensando..."Vou fazer o meu melhor"...Mas eu queria mais, queria poder criar e desenvolver dentro da clínica as pesquisas com células-tronco e terapia gênica na surdez... E, para ser sincera foi isto que me moveu. - vislumbrar as possibilidades de novas estratégias para tratamento da surdez. Poder contribuir, nem que fosse um pouquinho, para o avanço da Otologia Clínica", diz ela.

Austrália, EUA, Bélgica e França
Para ter conhecimento total do trabalho que seria desenvolvido no LIM, contou com o forte incentivo e iniciativa do Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento e estagiou em alguns laboratórios ao redor do mundo. O primeiro foi na Austrália em 2006, no Bionic Ear Institute, na Universidade de Melbourne. Em 2007, esteve no Setor de Biologia Celular Estrutural, no National Institute Of Health, NIH, Washignton-DC, EUA, onde acompanhou experimentos de transfecção de cultura organotípica do órgão de Corti com o Prof. Dr. Bechara Kachar. Em 2008, esteve na Bélgica, no Centro de Neurociências, na Universidade de Liège, com o prof. Dr. Philipe Lefevre. "Com ele, aprendi a dissecar a cóclea de camundongos. Difícil, "It's very trick", dizia a Profa. Brigitte Malgrange, do Recherche Neurobiologie Cellulaire et Moléculaire, esposa do Prof. Lefevre. Trabalhar com cultura celular, por si só, já é difícil independente do tipo de célula, trabalhar com células da audição é simplesmente desafiador. Depois que voltei do estágio, levamos três anos para padronizar todo o manejo e cultivo, adaptar e padronizar os protocolos de coleta e extração do tecido, as passagens e repiques, como fazer a imunofluorescência das células-tronco progenitoras do órgão de Corti. Tive ajuda da Dra. Ana Carla Batissoco e do Dr. Luiz Carlos Barbosa. O Prof. Ricardo nos apoiou muito, ele e o departamento financiaram minha ida aos principais centros de estudo, em conjunto com o apoio da Fundação Otorrino e do CEDAO". Em 2009, graças ao contato da Profa. Regina Mingronni, esteve por duas semanas no Setor de Células-Tronco da Orelha Interna, Universidade de Montpellier 1, Montpellier, França com o Prof. Azel Zine e com ele aprendeu sobre estratégias e genes alvos na regeneração da surdez.
"Em 2009, fiz concurso para médico do HC-FMUSP e fui contratada para trabalhar na instituição. Nesta ocasião, nós precisávamos de dinheiro para transformar o LIM-32 em um centro de excelência em terapia celular e molecular, além de testes genéticos, no diagnóstico e tratamento das doenças da orelha interna", complementa a otorrinolaringologista.
Por indicação do Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento, a Dra. Jeanne assumiu a chefia do LIM-32: "Esse foi um ano inesquecível, bolamos um megaprojeto temático, em colaboração com professores dos mais diversos centros de pesquisa incluindo a Profa. Regina Mingroni-Netto e a Profa. Luciana Haddad do Instituto de Biociências da USP (Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, IB-USP), o Prof. Bryan Strauss, do Setor de Vetores Virais do INCOR, a Profa. Luciana Vasques da UNIFESP. A ideia foi incluir a lista de todos os equipamentos indispensáveis à infraestrutura deste novo laboratório. Recebemos o aceite de auxílio do CNPQ, Edital 17/2008 - Terapia Celular - Processo N0: 573920/2008-7 e o grupo passou a fazer parte da RNTC (Rede Nacional de Terapia Celular), além do Auxílio Regular à Pesquisa Fapesp 2009/09473-3 "Sinalização e diferenciação das células do órgão de Corti: perspectivas para a terapia da surdez". Desse modo, conseguimos a infraestrutura necessária para equipar o novo LIM-32. A equipe passou a fazer parte do INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Células-Tronco). Os recursos todos foram solicitados em nome do Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento. A Profa. Regina Célia Mingroni-Netto, pioneira em testes genéticos para surdez no Brasil, nos ajudou a formular a lista de equipamentos. Em novembro de 2009, assumi a responsabilidade sobre a reforma. Não bastava ter equipamentos, era preciso adequar a rede elétrica, hidráulica, bancadas, espaços para recebe-los. A geneticista Karina Lezirovitz tinha sido contratada como pesquisadora científica do LIM-32 e nos ajudou muito a adequar as escolhas feitas, marca, modelos de equipamentos no que tange a infraestrutura de biologia molecular, a parte genética. A parte de infraestrutura para cultura celular foi adequada nas experiências prévias que tive nos laboratórios que visitei. O laboratório ficou pronto no final de 2011, quando realizamos a primeira Oficina Prática de Genética e Células-Tronco para Surdez do LIM32. A inauguração foi feita em fevereiro de 2012", diz Dra. Jeanne.
Em novembro de 2011, durante o 1º Hearing, fui convidada pelo Prof. Ricardo Ferreira Bento para liderar um novo projeto, o "Grupo de Pesquisa em Zumbido", focado especificamente no desenvolvimento de novas estratégias de tratamento para as repercussões, reações e percepção do zumbido em pacientes portadores do sintoma. O recrutamento de pacientes novos passou a ser feito diretamente no site (www.zumbido.org.br). O primeiro atendimento ocorreu em dezembro de 2012. "Hoje em dia conto com uma equipe excepcional e alto astral, o que é fundamental no atendimento destes pacientes: Laura Garcia (medidas psicoacústicas), Patrícia Simonetti (Aconselhamento Dirigido e Adaptação de Dispositivos de Terapia Sonora), Carla Campagna (Fisioterapia para Zumbido Somatossensorial)", comenta.
A rotina da Dra. Jeanne começa cedo, às 5 da manhã, cuidando dos dois filhos - Pedro e Rodrigo, de 3 anos e 10 meses, respectivamente e, às 7 horas está no HC. "São 30 horas semanais de trabalho mais o consultório. Os finais de semana e feriados são da família. Sou casada há 10 anos com o Eduardo e passamos o máximo de tempo possível juntos. Nos sábados e domingos, passeamos no parque com os meninos e a cachorra. A leitura é meu hobby, não passo uma semana sem ler, ao menos, dois livros. Curto muito a minha casa e minha família; e adoro grandes desafios, eles me alimentam", diz ela.
Segundo a médica, a Fundação Otorrinolaringologia é uma grande máquina de formação de profissionais. "São 100 cursos por ano. O ambiente permite grande aprendizado e constante aperfeiçoamento; é uma honra fazer parte do time. Ter o Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento como professor titular da Disciplina que trabalho é um privilégio. Ele é um homem desprovido de preconceitos, líder e empreendedor por natureza; e sabe, como ninguém, extrair o melhor de cada um que faz parte de sua equipe", finaliza Dra. Jeanne.