PERFIL MÊS: PROF. DR. EDIGAR REZENDE DE ALMEIDA

Segundo filho de uma família composta por 10 pessoas, o menino Edigar se encantava com as raras visitas do médico, Dr. Luiz Braia, quando alguém adoecia.


18/12/2012

Segundo filho de uma família composta por 10 pessoas, o menino Edigar se encantava com as raras visitas do médico, Dr. Luiz Braia, quando alguém adoecia. "Minha família tinha origem humilde e vivíamos em uma pequenina cidade do interior, divisa com Minas Gerais, Santo Antonio do Alegria, com menos de quatro mil habitantes e a visita do médico mudava o comportamento de toda a família. Minha mãe abria sabonete novo, usava a melhor bacia da casa para o médico lavar as mãos e colocava a toalha mais bonita para uso dele. E essas atitudes de respeito aconteciam em todos os lugares que ele visitava. O médico tinha uma aura especial naquela época, quase setenta anos atrás", lembra ele.
A família ficou pouco tempo na cidade. Os filhos terminaram o primário e não havia curso ginasial e os pais resolveram se mudar para Batataes. A decisão de cursar medicina se tornou mais forte depois do fim de um namoro com uma jovem de família de posses. "A minha namorada, na época, deixou claro que os pais eram contra o namoro porque eu não era doutor. Encarei dois anos de cursinho e ingressei na Faculdade de Medicina USP de Ribeirão Preto em 1959. Em 66, me formei e vim fazer residência no HC-FMUSP", diz o médico.
Quando chegou a São Paulo, Dr. Edigar estranho demais. "Em Ribeirão Preto, eu trabalhava. Era corretor de café, de imóveis, vendia ações do Hospital São Lucas, ganhava um bom dinheiro. Levava uma vida de rico. E escolhi a otorrinolaringologia como especialidade porque achava que não era medicina de urgência como a cardiologia ou a obstetrícia. Mas a solidão que eu sentia, me levava a chorar à noite, várias vezes, no quarto da residência da faculdade que eu morava", comenta.
Quando entrou no HC-FMUSP, o professor titular era o Prof. Rafael Da Nova e, logo em seguida quem assumiu a cadeira foi o Prof. Dr. Lamartine. "Quem dava apoio a todos os estudantes, nessa época era o Prof. Dr. Aroldo Miniti. Ele percebia a tristeza (ou a depressão) de cada um e levava para sair, jantar fora e até emprestava dinheiro para quem estava sem nenhum. Isso acabou por criar uma ligação muito forte com todos e, após defender o doutorado tentei ser assistente na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, a disciplina de ORL era regida pelo Dr. Marcos Grellet. E como tinha seguido o conselho do Dr. Aroldo de não me desligar do HC sem antes ter uma experiência, voltei em menos de um mês", conta o professor.

Universidade de Bordeaux
Casado, com uma filha de quatro anos na época, assim que voltou a São Paulo, Dr. Edigard recebeu a aprovação de uma bolsa de estudos em Bordeaux, na Universidade de Bordeaux, na França, com o Prof. Dr. Michel Portman. E lá passou sete meses. "Foi um estágio exaustivo, onde aprendi muito. Acompanhava várias cirurgias porque a estrutura de ensino de lá era extremamente boa. E quem estudava lá precisava assistir a todas elas. Otologia foi o meu foco de aprendizado", diz ele.
Quando voltou da França, foi ministrar aulas no curso de Fonoaudiologia do Hospital das Clínicas. "Nessa época, a Fonoaudiologia era um curso paramédico, cuja responsabilidade era da disciplina de otorrinolaringologia. Eu fazia parte de uma comissão com a Dra. Satiko (Fisiatra), eu cuidava da fonoaudiológial, o Prof. Dr. Lamartine Junqueira Paiva e o Prof. França, da neurologia. Lembro-me que a otorrinolaringologia ficava toda no sexto andar do HC, inclusive o ambulatório e o centro cirúrgico. E, fora as aulas, eu ficava no plantão do pronto-socorro sempre. E em todas as manhãs, eu operava", conta o médico.
Segundo Dr. Edigar, o que ele mais gostava de fazer eram as cirurgias de ouvido, nariz e garganta. "Cada cirurgia é diferente da outra e, conforme avançou a tecnologia, a medicina deu um salto também. A fibra ótica mudou a medicina", comenta.

Aprendizado com o luto
Pai de três filhos, Dr. Edigard dividia-se entre o trabalho e a família. "O que mais me arrependo foi ter ouvido conselhos de amigos e deixado a minha filha mais velha no Brasil, com a minha sogra (diziam que era difícil viver na França com uma criança tão pequena) enquanto estive na Françal. Ela ficou muito traumatizada e repercutiu muito em toda a nossa vida familiar. Tivemos mais dois filhos e o Edgar junior, que era o segundo filho, sempre foi motivo de orgulho de todos nós. Para que ele não enfrentasse todos os problemas que eu tive quando fui morar fora do país, cursou inglês e falava fluentemente. E falava e lia em francês. Nos três anos no Colegio São Luiz, foi eleito o "Mehor amigo" e, na sua formatura, voltou cedo para casa mesmo se divertindo muito na festa. Isso porque os amigos que o acompanharam precisavam voltar até meia-noite porque os ônibus não circulavam mais. Entrou com 17 anos na Faculdade de Medicina de Botucatu. Estudei muito junto dele para o vestibular. E, muitas vezes, me questionava como eu conseguia resolver problemas complicados de química e física. Aos 18 anos, depois dele tirar carteira de motorista, comprei e dei um carro para ele. Na primeira viagem que ele fez entre uma cidade e outra, sofreu um acidente e foi para a UTI de Araraquara. E de lá foi removido de avião para cá. Mas perdemos o nosso filho. Foi uma tristeza enorme, sentia que tudo tinha se acabado. Só, então, descobri o quanto meu filho era querido. Pais e avós de amigos dele (inclusive os que moravam foram do país), me escreveram, enviaram telegramas e até mensagens espíritas. Fora os seus amigos que fizeram questão de nos confortar. Recebi cartas do Chile ,França, Portugal, Estados Unidos, dinheiro de famílias japonesas - é costume entre os japoneses ajudarem a pagar o funeral - e até um pacote de chocolate de uma família judia. Depois descobri que era para deixar menos amargo o momento que vivíamos. As manifestações de carinho não paravam de chegar. Descobri que a maior riqueza, nessa vida, são os amigos e Edgar tinha muitos. Era um jovem rico", lembra o médico.
E, para vencer essa fase, Dr. Edigar passou a refletir sobre a vida. "A primeira pergunta que me fiz foi quantas pessoas não estão passando pela mesma situação que você? E lembrei-me que o filho do Dr. Zerbini tinha sido atropelado sob uma passarela e falecido. Vi que eu não era diferente de ninguém e que tinha que aceitar o que tinha acontecido. E me senti confortado por ter tido o filho que tive. Fui relembrando cada atitude dele e passei a trabalhar uma medicina mais humanitária, aquela que tenta entender o paciente como um todo. O importante para o médico é o sentido da humanização. Cheguei até a propor uma aula de religiosidade no curso de fonoaudiologia e uma aluna chegou a se divertir com o assunto. Mas, até hoje, vejo a necessidade da religiosidade para auxiliar o paciente como um todo", comenta.
O equilíbrio veio com o tempo unido ao relacionamento com a natureza, plantas e pássaros. "Sempre ouvi que quem planta, colhe. E eu colhi tanta coisa boa. Nunca fui ganancioso e respeito muito à natureza. Não permito de modo algum que matem os pássaros da fazenda ou coloque-os em cativeiro. E respeito muito meus funcionários, assim como meus alunos. Estou de segunda à quinta-feira de manhã, ensinando e trabalhando com jovens. Eles me ensinam muito. O Dr. Jatene disse, uma vez, que todos aprendemos com os jovens. Nós não podemos deixar de ouvi-los. Os jovens são muito criativos e dão força para continuarmos vivendo e produzindo. É uma simbiose. Eles aprendem com as nossas experiências e eu aprendo com a criatividade e o questionamento deles", diz o professor.

Quatro professores diferentes
Dr. Edigar Rezende de Almeida conheceu quatro professores titulares diferentes. "Quando entrei no HC-FMUSP o Prof. Dr. Rafael da Nova era o titular. Ele era um cavalheiro, um aristocrata. Entendia de arte, cultura. O Prof. Lamartine de Junqueira Paiva era de uma humildade muito grande, muito humano e não tinha a cultura que o antecessor tinha. O Prof. Dr. Aroldo Miniti já era mais dinâmico, um cirurgião muito habilidoso. E o Prof. Dr. Ricardo Ferreira Bento, bem, esse não conhece o significado da palavra preguiça. É um workaholic nato. Extremamente inteligente e tem uma dinâmica de trabalho muito forte. Tenho muita admiração por ele. Quando ele tem um objetivo, luta por ele com uma força absoluta, total. Ele, do ponto de vista acadêmico, é nota 10. E líder por natureza. Sabe escolher as pessoas certas que vão trabalhar com ele. Do início da minha vinda para cá, assisti muitas mudanças. A principal delas é a valorização da otorrinolaringologia. E muito por toda essa evolução provocada pelos novos professores. A otorrinolaringologia brasileira, atualmente, é respeitada no mundo inteiro. Temos até uma médica especialista em deglutição para quem sofreu AVC. Tenho muito orgulho de pertencer a essa faculdade. Só me afasto dela, às sextas-feiras, para viver o meu outro amor, a atividade agrícola. E será nele que viverei depois da minha aposentadoria", finaliza o médico.