PERFIL MÊS: DR. MICHEL BURIHAN CAHALI

Otorrinolaringologista no Hospital das Clínicas


01/09/2016

Nascido em 29/10/1971 em São Paulo SP, Michel Burihan Cahali é graduado em Medicina pela Universidade de São Paulo (FMUSP). A escolha pela carreira médica não veio ao acaso, já que o pai já é figura muito importante na otorrinolaringologia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo.

 “A família seguiu uma trajetória bastante comum para os descendentes de libaneses: uma geração muito jovem imigra para o Brasil na época da Primeira Guerra Mundial e luta bastante para se estabelecer e a geração seguinte (dos meus pais) vai para a Universidade. Então, cresci numa família que sempre valorizou a atividade acadêmica. Os amigos do meu pai brincavam dizendo que na minha casa o almoço era uma reunião anátomo-clínica! De fato, ouvir histórias sobre pacientes e hospitais era uma rotina na minha infância e sempre me fizeram sentir próximo a esta realidade”, conta Michel sobre as memórias de sua infância.

O primário, Dr. Michel fez em um colégio alemão chamado Benjamin Constant e o ginásio e colegial no Colégio Bandeirantes. “O Bandeirantes era bastante focado no desempenho dos alunos e lá conheci crianças com habilidades impressionantes nas mais diversas áreas, como matemática, geometria, desenho e redação. Foi um privilégio poder crescer neste ambiente e fico feliz de ter outros 20 amigos do meu ano no colégio que ingressaram comigo na Medicina da FMUSP.”

Mesmo não sabendo quando se decidiu pela medicina, a escola o ajudou a optar pela carreira: “Ao entrar no colegial, tínhamos que optar pela área de biológicas, exatas ou humanas, então acho que nesta época boa parte da decisão já estava consolidada na minha cabeça”.

A paixão pela otorrinolaringologia sempre fora influenciada pela presença do pai e sua profissão. Além do grande atrativo da área – ser clínico-cirúrgica –, o que auxilia o otorrinolaringologista na escolha da especialidade. “Hoje creio que já existam centenas de otorrinos filhos de otorrinos no Brasil e isto deve-se a dois fatores: a facilidade de uma porta de entrada na especialidade pelo parente mais velho e a enorme gama de atuação de nossa especialidade, que contempla as mais diferentes aspirações do médico. ”

Em relação às boas lembranças junto aos pacientes, Dr. Michel destaca uma delas: “Me lembro de uma história pitoresca: durante a graduação, a primeira cirurgia que acompanhei com meu pai foi uma estapedotomia (cirurgia para otosclerose, doença que causa surdez). Quando o paciente entrou na sala de cirurgia, meu pai tinha que gritar muito para ele ouvir. Eu não tinha assimilado que a cirurgia estava acontecendo com anestesia local. Ao final, ainda com os campos cirúrgicos no lugar, meu pai falou bem baixinho e o paciente ouviu tudo! Eu fiquei impressionado com aquilo, para mim parecia quase um milagre. E senti que era isto que eu queria fazer na vida”, diz ele.

O médico fez residência e doutorado no HC-FMUSP e estagiou no exterior. “Ainda durante o meu R3 pude fazer um estágio de dois meses na Mayo Clinic na Flórida, por meio de um convênio celebrado entre a FMUSP e aquela instituição, na qual pude acompanhar um atendimento privado terciário em todas as áreas da Otorrinolaringologia. Foi neste local que acompanhei algumas palatofaringozetaplastias (técnica cirúrgica para ronco e apneia do sono), a qual viria a ser o embrião da cirurgia que desenvolvemos na FMUSP. Ao término da residência médica, fiquei três meses no House Ear Institute na Califórnia, acompanhando aquele renomado grupo de cirurgia otológica e em seguida mais dois meses na Universidade da Pensilvânia na Filadélfia. Este último estágio fazia-me recordar o Hospital das Clínicas, pela sua estrutura e dimensões, e lá pude acompanhar o Prof. David Kennedy (especialista em cirurgia endoscópica nasal) e também os grupos que lá faziam cirurgias para ronco e apneia do sono“, comenta.

 

Carreira consolidada

“Ao retornar destes estágios, assumi o cargo de médico assistente na Otorrinolaringologia do HC-FMUSP, em vaga de um concurso que havia prestado no final da minha residência médica. Comecei também a estudar para meu projeto de doutorado, que consistia em desenvolver um tratamento cirúrgico para ronco e apneia do sono. Ainda durante o R3, realizamos três palatofaringozetaplastias no HC e percebemos os benefícios e as limitações desta cirurgia. No doutorado, descrevemos a técnica cirúrgica batizada de faringoplastia lateral e isto rendeu uma publicação que foi capa na revista Laryngoscope em 2003 e outra que recebeu um editorial na revista Sleep em 2004, ambas dos EUA. Desde então, temos desenvolvido esta cirurgia e pesquisado seus efeitos. A projeção internacional desta técnica cirúrgica foi muito grande e ao menos quatro variações técnicas dela já foram publicadas por autores dos EUA, Europa e Ásia“, conta o médico.

Michel se orgulha em trabalhar com uma área tão recente na medicina – o Sono, que se tornou área de atuação médica apenas em 2012. Os avanços progressivos e rápidos do campo somente o entusiasmam a continuar na carreira. Tanto que traz uma história que firma a importância desse campo: “Em relação aos pacientes que atendemos em nosso ambulatório, as queixas habituais são de ronco antissocial e sonolência diurna causando grandes prejuízos para o paciente, inclusive com relatos não raros de acidentes automobilísticos causados por dormir ao volante. A população geralmente não valoriza a queixa de ronco, mas lembro de um paciente do HC que, durante uma longa viagem de ônibus, no 3º ou 4º posto de parada da viagem, foi impedido pelos outros passageiros de retornar ao veículo, pois ninguém conseguia dormir devido aos roncos dele. O paciente teve suas malas retiradas e precisou aguardar o próximo ônibus da linha para embarcar novamente. Isso é muito sério para o paciente”, diz.

Hoje trabalha no Grupo do Sono da Otorrinolaringologia no HC junto com os doutores Gilberto Formigoni e Alexandre Nakasato. O grupo é responsável pelo atendimento ambulatorial e cirúrgico dos pacientes com distúrbios respiratórios do sono e pelo laboratório de polissonografia. Também participa do treinamento de residentes da Otorrinolaringologia e dos residentes da Medicina do Sono.  “Continuamos publicando na área de cirurgia do sono e também de fisiopatologia da apneia do sono, junto com os pós-graduandos desta área. Em 2012, ganhamos um novo editorial na revista Sleep com a descrição da composição da matriz extracelular da musculatura faríngea e suas implicações no ronco e apneia do sono”, conta Michel.

A cirurgia do sono tem evoluído muito e cada vez mais o estudo dela desperta mais interesse no otorrinolaringologista. “Nos últimos 10 anos, a evolução foi imensa e meu maior interesse recai nas modificações que outros autores têm testado na nossa técnica de faringoplastia lateral. Nós já propusemos e incorporamos algumas modificações à técnica original, que atualmente encontra-se em sua sexta versão”, comenta.

Dr. Michel, contudo, não vive somente de sua profissão. É casado com Kristine Fahl Cahali, médica pediatra e tem um casal de filhos: Letícia, de 4 anos e André, de 2 anos. Dividindo o tempo com o cuidado com as crianças, a profissão, quase não sobra tempo para hobbie algum. Quando pode, assiste a um bom filme no cinema.

Na Fundação Otorrinolaringologia, só há memórias ternas: “Eu vivenciei o nascimento da FORL e toda a dedicação do Prof. Ricardo Bento em transformá-la em uma das maiores organizações de apoio ao ensino, pesquisa e projetos sociais na área da otorrinolaringologia no mundo. A FORL tem hoje um indiscutível reconhecimento nacional e internacional. Na área de sono, por exemplo, a FORL organizou em abril deste ano o maior congresso de cirurgia do sono já realizado no mundo, que foi o 7º Congresso da International Surgical Sleep Society, trazendo 42 palestrantes de fora do Brasil e reunindo congressistas de 26 países! Até hoje, os colegas estrangeiros comentam e elogiam a extraordinária capacidade do grupo da FORL em vencer tantos desafios logísticos, ultrapassando todas as marcas dos eventos anteriores realizados em outros países, em um ano de profunda crise econômica no Brasil”, diz ele.

Porém, mesmo apreciando todo o trabalho com a FORL, ainda tem vontade de fazer a instituição crescer mais! “Creio que o próximo passo para a FORL é a internacionalização. Podemos levar para outros países os modelos de cursos já consagrados no Brasil.”, finaliza o doutor.